Mensagens vazadas revelam ligação imprópria de Moro com a Lava-Jato

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O site “The Intercept – Brasil” publicou, neste domingo (9), uma série de reportagens baseadas em mensagens trocadas entre integrantes da operação Lava Jato, em Curitiba. As conversas mostram, entre outras coisas, como os procuradores agiram para impedir entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes das eleições, para evitar uma possível vitória do candidato petista Fernando Haddad à Presidência da República, e que o ex-juiz federal e hoje ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, orientou as investigações da Lava Jato por meio de mensagens trocadas com o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa.

Na reportagem, o “Intercept Brasil” afirma que teve acesso, com exclusividade, a mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram. Nelas, os procuradores da Lava Jato em Curitiba, liderados por Deltan Dallagnol, discutiram formas de inviabilizar uma entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à colunista da Folha de S.Paulo Mônica Bergamo, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, porque, em suas palavras, ela “pode eleger o Haddad” ou permitir a “volta do PT” ao poder. Por anos, os procuradores garantiram não ter motivações políticas ou partidárias.

A legislação brasileira determina que não haja vínculos entre o juiz e as partes em um processo judicial. Para que haja isenção, o juiz e a parte acusadora – neste caso, o Ministério Público – não devem trocar informações nem atuar fora de audiências. Ainda assim, de acordo com as reportagens, ao longo de dois anos, por meio das mensagens, Moro sugeriu que o procurador trocasse a ordem de fases da Lava Jato, deu conselhos e pistas informais de investigação e antecipou uma decisão que ele ainda daria. As mensagens também mostram que Moro criticou e sugeriu recursos ao Ministério Público.

Em uma conversa de 27 de fevereiro, por exemplo, Moro teria perguntado a Dallagnol: “O que acha dessas notas malucas do diretório nacional do PT? Deveríamos rebater oficialmente? Ou pela Ajufe [Associação dos Juízes Federais do Brasil]?”. Em meio a manifestações de rua contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, o então juiz declarou o desejo de “limpar o Congresso”, depois de ser parabenizado pelo procurador devido “ao imenso apoio público”.

Ainda de acordo com a publicação, Deltan Dallagnol apresentava dúvidas das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes de apresentar a denúncia de que Lula havia recebido de presente um apartamento triplex na praia do Guarujá após favorecer a empreiteira OAS em contratos com a Petrobras.

O The Intercept Brasil pertence ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que também assina as matérias. Greewald ficou conhecido mundialmente após ajudar o ex-analista de sistemas Edward Snowden a revelar informações secretas obtidas pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos EUA. De acordo com a publicação, as conversas fazem parte de um lote de arquivos secretos enviados por uma fonte anônima há algumas semanas, antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro, divulgada recentemente.

Lava-Jato alega ataque hacker à Operação
Em resposta ao vazamento das mensagens trocadas pelo então juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato, a assessoria de comunicação do Ministério Público Federal no Paraná enviou uma nota informando “que seus membros foram vítimas de ação criminosa de um hacker que praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança de seus integrantes.”.

Segundo a nota, o suposto hacker “invadiu telefones e aplicativos dos procuradores da Lava Jato usados para comunicação privada e no interesse do trabalho”. O MPF-PR não soube informar a extensão da invasão, mas afirmou que foram obtidas cópias de mensagens e arquivos trocados entre os integrantes da Força Tarefa.

Entre as informações copiadas ilegalmente estão documentos e dados sobre estratégias e investigações em andamento, além de aspectos da rotina e da segurança dos integrantes da Lava Jato e de seus familiares.

“Há a tranquilidade de que os dados eventualmente obtidos refletem uma atividade desenvolvida com pleno respeito à legalidade e de forma técnica e imparcial, em mais de cinco anos de Operação” afirma a nota.

O comunicado conclui que os ataques são uma grave e ilícita afronta ao Estado e que foi uma reação aos avanços da Operação contra a corrupção. Afirma ainda que é de se esperar que a atividade criminosa avance para deturpar fatos e disseminar “fake news”.

Por fim, os procuradores da Lava Jato em Curitiba mostram tranquilidade quanto à legitimidade de seus atos. Entretanto, discussões em grupos de mensagens, sobre diversos temas, alguns complexos, em paralelo a reuniões pessoais foram feitas ao longo dos últimos cinco anos.

Segundo a nota, “conversas, sem o devido contexto, podem dar margem para interpretações equivocadas. A força-tarefa lamenta profundamente pelo desconforto daqueles que eventualmente tenham se sentido atingidos.”

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